Quando o abuso obstétrico convida à fuga dos hospitais

10-10-2011 21:54

Pensa que Ricki Lake[1] está por trás da popularidade do parto domiciliar? Pense melhor.

FONTE: http://mamabirth.blogspot.com/2011/10/think-ricki-lake-is-behind-home-birth.html

 

Ah, Ricki Lake. É tão fácil gostar desta senhora. Aquele talk show (tenho idade para o ter visto – ai!), aquele filme do parto (eu vi-a nua!), e agora Dançando com as Estrelas! Ela parece mesmo a pessoa certa para partilhar uma chávena de chá. Como é que esta insignificante actriz despertou tanto ódio e difamação por parte da comunidade obstétrica/anti-parto domiciliar? Bom, o motivo óbvio é aquele pequeno filme que ela fez: "The Business of Being Born."[2]

O filme (BOBB) apresenta uma óbvia tendência pro-parto domiciliar e documenta alguns partos em casa (ou tentativas de), seus percursos, alegrias e desilusões. (Uma das mães – nem mais nem menos que a realizadora – passa por uma transferência para o hospital, porque o bebé se prepara para nascer cedo demais.) Ela explora algumas intervenções hospitalares comuns, entrevista alguns médicos e parteiras fabulosos (de ambos os lados da barricada) e, no fundo, deixa a ideia de que o parto em casa não tem nada de mal. Se o antigo Director da Organização Mundial de Saúde o considera uma boa opção, que mal pode ter, não é?


Eu adoro aquele filme e já vi quem colocasse a hipótese de um parto em casa depois de o ver, ou pelo menos quem questionasse o manancial de procedimentos tão comuns em meio hospitalar, depois de o ter visto. Assim sendo, por que motivo a facção anti-parto domiciliar ataca uma mulher que buscava um nascimento melhor, e o alcançou em casa? A ACOG (também designada como “o inimigo” – bem, talvez eu seja a única que a designa desta forma) publicou mesmo um COMUNICADO em que se refere a ela e ao seu filme, “As decisões respeitantes ao nascimento não devem ser ditadas ou influenciadas pelo que está na berra, pela moda ou por recentes celeumas.”

 

Talvez estejam fulos por causa do aumento IMENSO de partos domiciliares. (Estou a ser sarcástica) A ocorrência de partos em casa cresceu 20% nos últimos anos, é verdade, mas… “Em 2008, registavam-se 28,357 partos domiciliares nos Estados Unidos. De 2004 a 2008, a percentagem de nascimentos que ocorreram em casa aumentou 20 por cento, de 0,56 para 0,67 por cento de todos os nascimentos ocorridos nos Estados Unidos. Este aumento foi em grande medida motivado pelo crescimento de partos domiciliares entre mulheres brancas não-hispânicas, entre as quais mais de 1% dos partos ocorre em casa.”

 

Pode ler o resumo aqui. Vinte por cento pode parecer um salto imenso, mas ainda assim estamos a falar tão-somente de cerca de UM POR CENTO de mulheres que no total têm partos em casa – isto não é propriamente uma tendência dominante, ainda.

Portanto, Ricki Lake faz um filme, a percentagem de partos domiciliares dispara nos Estados Unidos, logo, a culpa deve ser dela, certo?

ERRADO.


Ricki é um alvo fácil. Principalmente se não quiserem assumir qualquer responsabilidade pelo facto de as vossas pacientes vos odiarem.

É, disse-o. A taxa de partos domiciliares sobe porque as mulheres já não querem parir nos hospitais com obstetras. São os obstetras, não Ricki Lake, o motivo que está por trás do aumento dos partos domiciliares. Porquê? Que aconteceu com as mulheres?

~Elas sabem que a oxitocina sintética lhes provoca dores infernais.~
~Elas interrogam-se  porque há-de ser a amamentação tão difícil.~
~Elas passam por dificuldades ao longo da recuperação de uma epidural.~
~Elas sentem que não têm qualquer controlo sobre a situação enquanto estão meio paralisadas.~
~Elas sentem-se como um bocado de carne numa cama, enquanto as enfermeiras entram e, em vez de falarem ou olharem para elas, olham para o registo das suas contracções e do ritmo cardíaco dos seus bebés.~
~Mais de 30% delas tiveram os filhos via cirurgia abdominal e nem sabem porquê. ~
~Elas foram ignoradas, esquecidas, e depois ainda lhes disseram que isso não tinha importância nenhuma, porque tiveram um bebé saudável. ~


O que leva as mulheres para fora dos hospitais não é um desejo descabido de ser como uma antiga convidada de um talk show televisivo, é antes a sua insatisfação com o sistema obstétrico e hospitalar.

Se os obstetras, a ACOG e os furiosos bloggers anti-parto natural querem que as mulheres continuem a parir no hospital (que é o que a maioria quer, sejamos honestos) devem esquecer Ricki Lake e o BOBB, e devem ver-se ao espelho.

É muito mais difícil admitir que as pessoas simplesmente não gostam de vocês nem do tipo de assistência que lhes prestam. Culpar outros é muito mais fácil e exige muito menos introspecção. Mas essa atitude não resolve o problema. O problema reside na disfuncionalidade da assistência materno-fetal.

 
Se querem realmente ver as mulheres a sair de casa para irem parir ao hospital, a resposta é muito simples:

Respeitem-nas.
Falem com elas.
Olhem para elas.
Respondam-lhes às questões que colocam.
Aprendam os seus nomes.
Facultem-lhes bom apoio à amamentação.
Dêem-lhes os seus bebés.
Comprometam-se com a iniciativa Hospitais Amigos das Mães e dos Bebés.
Concedam-lhes verdadeiras oportunidades de parto vaginal após cesariana.
Sugiram procedimentos clínicos como a indução apenas quando for realmente necessário.
Sejam alguém em quem elas possam confiar.


Muitos hospitais e profissionais de saúde já fazem isto. Muitos não. Mas as mulheres também não têm consciência de que existe outra opção, não se importam, ou têm medo de parir sem alívio farmacológico da dor.

A verdade é que o modelo de assistência obstétrica não tem de mudar nada a sério. A grande maioria das mulheres acredita que o melhor que pode fazer é parir no hospital, com um obstetra. Mas se estes quiserem manter (ou voltar a atrair) aquelas mulheres que estão insatisfeitas com a assistência comum hoje em dia, podem simplesmente seguir as sugestões acima. Parir em casa é muitas vezes mais exigente, mais dispendioso (se as seguradores não o cobrirem) e culturalmente menos bem aceite. Tomar a decisão de parir fora do hospital continua a ser bastante revolucionário, independentemente do que faça Ricki Lake.

Podem olhar para o espelho e VER que provavelmente Ricki Lake foi tão-somente mais uma reacção a maus partos hospitalares, do que uma rebelde promovendo o parto domiciliar sem razão válida, ou, em vez disso, podem simplesmente apontar o dedo a um pequeno filme e a uma convidada de um talk show. Isto é muito mais fácil do que promover a própria mudança.

 
Se “eles” se preocupassem verdadeiramente com as mulheres e com os bebés, e estivessem mesmo convictos de que o parto em casa é menos seguro, então, com toda a solicitude, passariam a tratar as mulheres e seus bebés com respeito. Se calhar não querem mesmo saber de nós. Se calhar só se preocupam com os seus próprios interesses, com a sua agenda, com a sua conveniência.


Por mim tudo bem – eu conheço uma óptima parteira domiciliar.

 

Tradução: Mal Me Quer



[1] Autora e figura central do filme “O Negócio de Nascer”.

[2] N.T.: “O Negócio de Nascer”.

 

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